Confesso que li: 3096 Dias [Resenha]

Autor: Natascha Kampusch
Editora: Verus
ISBN: 9788576861072
Páginas: 225
Título Original: 3096 Tage
Nota: 3 Estrelas

Sinopse: Natascha Kampusch sofreu o destino mais terrível que poderia ocorrer a uma criança: em 2 de março de 1998, aos 10 anos, foi sequestrada a caminho da escola. O sequestrador – o engenheiro de telecomunicações Wolfgang Priklopil, a manteve prisioneira em um cativeiro no porão durante 3.096 dias. Nesse período, ela foi submetida a todo tipo de abuso físico e psicológico e precisou encontrar forças dentro de si para não se entregar ao desespero. Natascha Kampusch fala abertamente sobre o sequestro, o período no cativeiro, seu relacionamento com o sequestrador e, sobretudo, como conseguiu escapar do inferno, permitindo ao leitor compreender os processos de transformação psicológica pelos quais passa uma pessoa mantida em cativeiro, sofrendo todo tipo de agressão física e mental imaginável.

Talvez essa tenha sido uma das resenhas mais difíceis que tentei escrever até hoje, simplesmente porque não é fácil escrever uma resenha sobre uma história tão sofrida e difícil quanto a da Natascha. Estou acostumada a ler ficção, histórias de “faz-de-conta”, em que você sabe que o vilão é de mentirinha e tudo fica para trás quando você fecha o livro, então foi extremamente difícil ser confrontada por essa realidade. O relato começa na primeira infância de Natascha, quando ela apresenta o mundo que conhecia como criança, sua relação com seus pais e sua família, e como isso foi mudando aos poucos conforme ela crescia. De princesa da família, a adorável caçula, ela passou a uma criança tímida e introvertida, acima do peso e com problemas de autoestima. Os problemas e desafetos em casa desenvolveram nela um desejo por independência e liberdade, idealizando seus 18 anos como a idade em que sua vida mudaria, pois já seria uma adulta. Mas um dia, na primeira vez em que estava indo sozinha de casa para a escola, todos os seus sonhos e planos foram interrompidos por Wolfgaang Priklopil, que a sequestrou e a levou para um cativeiro – seu lar pelos próximos oito anos.

O livro foi escrito alguns anos após a fuga de Natascha e morte de seu sequestrador – que se suicidou no mesmo dia, provavelmente para não ser capturado pelas autoridades locais -, e mostra não apenas suas memórias, mas a análise que ela própria faz de tudo aquilo que viveu e experimentou nos longos anos de cativeiro. O tipo de análise que ela apresenta sobre suas ações e reações (como sua mente acabou regredindo nos primeiros dias de cativeiro, voltando a ter a percepção de mundo de uma criança de 4, 5, anos, e como isso permitiu que ela sobrevivesse às primeiras semanas, etc), além de diversos comentários que ela apresenta durante o livro, evidencia a busca pelo conhecimento teórico daquilo que ela vivenciou na prática, talvez como uma tentativa de compreender tudo o que lhe ocorreu durante aqueles anos. Ela discorre sobre tortura psicológica e física, apresentando as causas e consequências do que vivenciou no cativeiro, como determinada ação do sequestrador tinha um efeito específico sobre seu corpo e sua mente. Podemos ver a transformação que ela sofreu ao longo dos anos, como foi privada de sua liberdade e autoconfiança, como foi “trabalhada” pelo sequestrador até que ela se aproximasse daquilo que ele considerava ideal e, como mesmo assim, não era o bastante para ele.

Apesar de ser uma leitura um pouco mais pesada, me vi envolvida pela história de Natascha desde o momento em que ela relata o sequestro, não conseguindo deixar o livro de lado até terminar a última página. Em alguns momentos, principalmente quando ela começa a relatar os abusos físicos que sofria, com repetidas surras e maus tratos, me dava uma vontade de deixar o livro de lado por alguns momentos, nem que fosse para ler algumas páginas de alguma coisa mais “leve” e conseguir respirar um pouco, mas estava ansiosa para chegar ao ponto em que as coisas mudariam, em que todo aquele sofrimento seria deixado para trás, e era basicamente isso que me impulsionava – a certeza de que o caos na vida de Natascha chegaria ao fim e o desejo de chegar logo a essa parte.

Não foi uma das melhores leituras do meu ano, nem uma das mais prazerosas, mas “3096 Dias” realmente traz uma análise diferenciada sobre o comportamento humano, não apenas sobre a transformação de Natascha, mas de sua própria análise de Wolfgaang. A escrita parece ser, ao mesmo tempo, o relato da pequena Kampusch, descrevendo todo seu tormento, e a análise clínica de um observador externo, o que em alguns momentos me deixava um pouco desconcertada. No geral, foi uma boa leitura, e agradeço à Manu por me proporcionar esta experiência.

Anúncios

8 comentários sobre “Confesso que li: 3096 Dias [Resenha]

  1. Lorena disse:

    Wow,

    o livro parece muito interessante, mas admito que meu estômago deu vários nós enquanto eu lia sua resenha. Não consigo imaginar o que é passar por isso, mas sei que ela precisou de uma força estraordinária para escrever sobre.

    É um livro que entrou para minha listinha, mesmo sabendo que tenho estômago muito fraco para isso, rs.

    Beijão, Liah.

    http://ideiasemblocos.com.br

    Curtir

    • Liah Nogueira disse:

      Oi, Gabi!
      Sim, foi só a certeza de que tudo ficaria “bem” no final que me motivou a começar e terminar a leitura. Eu esperava uma leitura um pouco mais densa, pelo que a Manu tinha me falado, mas ainda assim foi uma leitura bem forte. E obrigada, de verdade *-*
      Beijos e ótima semana :3

      Curtir

  2. DEISE GABRIELA DE LARA disse:

    Depois de ler esta resenha ,estou com medo de ler este livro e ao mesmo tempo atiçou minha curiosidade, já vai entrar para minha lista de livros para este ano…Sofro quando leio livros que contam histórias reais,mas mesmo assim é um tipo de leitura que me faz querer ler mais…

    Curtido por 1 pessoa

Confessionário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s