Confesso que li: A Garota das Nove Perucas [Resenha]

Autora: Sophie van der Stap
Editora: Livros de Safra
ISBN: 9788564683235
Páginas: 208
Título Original: Meisje met negen pruiken
Nota: 3 Estrelas

Sinopse: Poucos fatos podem abalar tanto a vida de uma jovem linda, autoconfiante e baladeira de 21 anos. Sem dúvida, descobrir que foi acometida por uma doença muito, muito séria é um deles. Há alguns anos, muitas pessoas optavam por sequer pronunciar a palavra câncer. Mas a holandesa Sophie van der Stap não fez essa opção: encarou a palavra e a dureza de uma possível falta de perspectiva, viu de repente seu mundo ruir e a incerteza tomar conta de seus dias, pois a impossibilidade do futuro parecia concreta. Foi aí que, de um modo muito peculiar, encontrou uma forma de resistir. Se teve de enfrentar o estranhamento do seu rosto careca no espelho e imaginar o modo como as pessoas olhariam para ela naquela peruca desajeitada, aos poucos percebeu que poderia fazer daquele limão uma tentativa de limonada. Por que não ter um pouco de diversão e alívio criando personagens diferentes? Cada uma com uma peruca, que a ajudariam a enfrentar aquele difícil ano de muita incerteza, atravessado por idas e vindas para hospitais e tratamentos. Foi assim que surgiram Uma, Pam, Sue, Blondie, Daisy, Platina, Stella, Bebé e Lydia. Mergulhe neste livro e descubra um pouco mais sobre elas.

(Livro cedido para resenha pela Editora.)

Em janeiro de 2005, a vida de Sophie van der Stap mudou completamente. Com apenas 21 anos, a jovem descobriu que estava com um tipo raro e agressivo de câncer, apenas alguns anos depois de a própria mãe ter sido tratada por câncer de mama. A “família de tumores” que fixou residência no corpo de Sophie adotou a pleura, a membrana que envolve o pulmão, como nova residência, alguns chegando bem próximos do fígado. O diagnóstico só veio depois de inúmeras visitas a diferentes médicos e foi recebido com o merecido choque – câncer, aos 21 anos, como ela poderia imagina? O livro nos apresenta todo o período do tratamento de Sophie, desde a descoberta da doença até a transformação da sua experiência em um livro. Com uma boa dose de humor e realidade, nua e crua, a garota apresenta como foi descobrir que estava doente, ver todos os seus planos, sonhos e certezas arrancados debaixo de seus pés e como enfrentou o câncer à sua maneira, para não se perder em meio ao caos.

As perucas, retratadas no título, vieram tão logo Sophie começou a perder os cabelos durante a quimioterapia. A primeira peruca, uma “ratazana cinzenta” e estranha, parecia tudo, menos seu cabelo. A coceira, o desconforto, o estranhamento, o espelho, tudo parecia ser mais um motivo para fazer Sophie se desesperar, já que não abraçaria a careca ou adorariaos lenços. Foi em uma loja de artigos para teatro que a jovem encontrou o escape: novas perucas, mas que não pareciam tão “perucas” quanto a primeira. Com o passar do tempo, seu jogo com as perucas tornou-se um jeito de lidar com a doença que lhe afligia. Com cada nova peruca, podia comportar-se de determinada maneira. Era mais romântica, mais sexy, meiga, aventureira ou mesmo confiante. Trocam-se as perucas, troca-se a maneira que o mundo a enxergava e, portanto, a forma com que ela interagia com o mundo. Não era uma questão de criar um personagem totalmente novo, do zero, mas de dar vazão a aspectos de sua própria personalidade – afinal, embaixo de cada peruca, estava a mesma Sophie de sempre.

Por todo o livro, que retrata a história real de Sophie, podemos ver como foi toda a relação dela com o tratamento, que durou pouco mais de um ano. Não direi “nossa, é uma grande história de superação, um exemplo, uma inspiração”, porque não é uma história, mas uma pessoa real, que sofreu, teve medo e desilusões, e deve ser enxergada por quem ela é, não pelo que ela vivenciou. A própria Sophie parecia debater muito com essa questão, principalmente quando via a reação das outras pessoas. Quando se está com uma doença grave, como o câncer, as pessoas parecem passar a enxergar a doença que está na pessoa, não mais a pessoa que está com a doença. E isso foi algo que gostei muito no relato da Sophie: como ela não deixou a doença definir quem ela seria ou como precisaria agir, mas que fez o possível para tomar as rédeas nas mãos, enfrentar o tratamento sozinha e fazer o possível para não se perder no meio do caminho.

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Apesar do que a última frase da sinopse (ou mesmo o título) possa dar a entender, o livro não é tão focado nas “personalidades” das perucas, e sim na Sophie como um todo. Ela apresenta brevemente como cada penteado permitia que certa parte de sua personalidade se sobressaísse mais, assim como o “nome” dado a cada uma das perucas, mas o foco da história ainda é a vida de Sophie, a garota por trás das perucas. Ela conta, com generosas doses de humor, suas indas e vindas ao hospital, seus amores e desafetos, a relação com seus pais, seus amigos, seus médicos e todos que estiveram envolvidos nesta etapa da sua vida.

O livro é divididos em pequenos “capítulos”, que são separados pelas datas dos acontecimentos. Isso ajuda a ter uma boa ideia do período em que as coisas aconteciam, como o tratamento e sua vida foram mudando ao longo do calendário, como o tempo foi passando. A narrativa segue em primeira pessoa, com os relatos partindo da própria Sophie. O que mais me desestabilizou na leitura foi a proximidade que enxerguei na Sophie: com recém-completos 23 anos, foi difícil não me colocar no lugar dela, pensar como seria a minha vida se eu, de uma hora para a outra, descobrisse que estava com câncer, e como lidaria com tudo isso. E, ao mesmo tempo, ver como ela romantizava os “jalecos brancos” (os médicos que entravam e saíam de sua vida), a paixão platônica pelo Doutor K., os comentários engraçados sobre o Doutor L. Foi muito difícil não me relacionar, não me colocar no lugar dela em determinados momentos, e esse foi um bom diferencial para a leitura.

O trabalho gráfico da editora é algo que eu também preciso comentar. Fiz questão de colocar inúmeras fotos do livro porque: estou apaixonada por esta edição. Um amigo meu já havia lido este livro e me mostrara que, nas orelhas, era possível encontrar as nove perucas de Sophie. Este foi um dos motivos que me deixou tão interessada pelo livro e que me fez optar por ser minha primeira leitura da editora. Perdi as contas de quantas vezes parava a leitura para abrir o encarte e rever qual era o visual da peruca que ela estava comentando. Tantas foram as vezes, na verdade, que a lombada já começou a descolar um pouco na parte da frente – é a vida.

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Mas nem tudo são flores, e também tem os pontos negativos. Em alguns pontos do livro, achei a história um pouco confusa e ficava meio perdida. No começo achei que talvez fosse pela tradução da editora, mas depois de um ponto comecei a mudar a minha suspeita para a própria escrita da Sophie. Em um momento ela está num determinado lugar, com determinada pessoa, e no parágrafo seguinte já é uma situação completamente diferente, sem ter uma transição. As idas e vindas no tempo também m deixaram um pouco perdida vez ou outra. Infelizmente também me deparei com alguns erros de revisão da editora, coisas que não poderiam ter deixado passar, e que me deixavam com a pulga atrás da orelha enquanto lia. Alguns eram erros bobos, que dava para perdoar, mas peguei dois ou três erros mais fortes, que realmente me incomodaram.

Em síntese, foi uma ótima leitura. Mesmo com um tema forte e que poderia ter sido, se escrito de outra maneira, desagradável de ler, a Sophia apresenta a vida de uma paciente de câncer (ou “paciente de quimioterapia”) de uma nova perspectiva, a sua, e isso deixa a leitura mais leve e fluida. Sim, me angustiei com ela, mas também sorri. E por isso, queridos e queridas, foi uma leitura que valeu a pena.

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15 comentários sobre “Confesso que li: A Garota das Nove Perucas [Resenha]

    • Liah Nogueira disse:

      Oi, Ká!
      Opa, que bom que gostou *—–* Livros de não-fição não são muito minha praia, mas este realmente me prendeu. Por mais que não seja uma história mirabolante, conseguiu me deixar interessada do começo ao fim. E ainda não conheço o livro que mencionou, vou dar uma fuçada no Skoob, hehe.
      Beijos e ótima semana :3

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    • Liah Nogueira disse:

      Oi, Gabi! Tudo bom, e contigo? 😀
      Sim, foi uma das coisas que mais gostei no livro, fiquei fascinada por este trabalho da editora nas orelhas do livro, então quis encontrar um jeito de colocar isso aqui no blog também. Normalmente tiro fotos mais simples para as resenhas, mas dei um jeito de conseguir mostrar todas as perucas, hehe. E sim, mesmo pelas fotos já dá para imaginar um pouquinho qual a personalidade que se sobressaia com cada uma das perucas, não? E que bom que gostou, fico feliz em saber!
      Beijinhos e ótimo domingo :3

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  1. Caverna Literária disse:

    Não conhecia ainda a história dela. Isso das perucas foi uma estratégia que deve tê-la ajudado muito a combater a doença, e nada mais justo também, isso devia até mesmo continuar mantendo-a viva. Já li dois livros que se assemelham muito à história dela, pensando agora acho que devem até ter se inspirado nela. E a edição é realmente linda, a editora fez um trabalho maravilhoso!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Vem conferir o Especial de Halloween que tá rolando no blog!

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    • Liah Nogueira disse:

      Heey, Carol, boa noite!
      Também não conhecia, pelo menos não até um amigo meu me apresentar o livro. E gostei da história dela – não só da história, mas também da maneira que foi apresentada. As perucas realmente tiveram um papel importante em todo o processo do tratamento dela, acho que realmente deram forças para que ela pudesse aguentar a quimio e a radioterapia. Opa, mesmo, quais livros? Fiquei curiosa, hehe. E ah, me apaixonei por esta edição, a arte das orelhas é linda ❤
      Beijos e ótima semana!

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  2. Maria (@marijleite) disse:

    Olá, gostei muito da sua resenha, ainda não conhecia o livro.
    Já li um livro onde uma das personagens (era uma criança) tinha câncer, usava perucas e gostava de ser chamada por outro nome, parece ser uma forma de tentar lidar melhor com a situação.
    petalasdeliberdade.blogspot.com

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    • Liah Nogueira disse:

      Oi, Maria, boa noite! 😀
      Opa, que bom que gostou, fico feliz em saber! Sim, realmente, é interessante ver como cada pessoa lida de uma forma diferente com essa mudança brusca na vida, ver como e onde encontram forças para lutar.
      Beijos e ótima semana!

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  3. Pâmela Barboza disse:

    Olá… 🙂
    Livro interessante, e que edição bonita.
    Não conhecia esse livro, mas acho que já ouvi falar da história dessa moça em alguma reportagem.

    Bjo e bom final de semana.

    Pâmela
    leiturasedesventuras.blogspot.com.br

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    • Liah Nogueira disse:

      Oi, Pâmela, boa noite! 😀
      Sim, a edição é realmente muito linda, assim como a história é bem interessante. Não chegou a figurar nos favoritos, mas foi uma boa leitura. E sim, a história dela ficou bem conhecida pelo mundo, o livro ganhou até adaptação para filme, acho que vou assistir para poder comentar aqui no blog, hehe.
      Beijos e um bom fim de semana para ti também!

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